Contos de uma noite qualquer

Pra ler ouvindo: We are young


Quem já terminou um namoro ou passou por uma desilusão amorosa sabe como é sofrer por amor: trágico e irônico. Trágico porque nada pior do que perder alguém. Irônico porque o amor é imprevisível. Ah, e como é. Certa vez li um texto de uma garota que dizia mais ou menos assim: quando perdemos alguém passamos por 4 fases: negação, aceitação, raiva e como eu posso dizer ? Demonstração. Na negação nós nos recusamos a acreditar que a pessoa nos deixou, não paramos de pensar que a qualquer momento ela pode entrar pela porta ou ligar e dizer que se arrependeu de tudo. Depois vem a aceitação. Nela nós percebemos que a pessoa se foi mesmo, que não tem mais volta, que houve dois corações partidos mas que, foi uma divisão bem injusta, porque você sofre tanto que começar a pensar que ficou com o pedaço menor. Depois vem a raiva. Xingamos até a décima geração do ex amor, queimamos as fotos, lavamos as roupas que guardavam o perfume que ela usava, excluímos os números de telefone, redes sociais e qualquer coisa que possa lembrar que um dia alguém passou por ali. É claro que você mantém o cachorro que vocês compraram juntos, ele não teve culpa de nada né?! E então chega a demonstração. Nessa fase você necessita mostrar pra pessoa que você não precisa mais dela, mesmo no fundo você sabendo que você não está nada recuperado. Que fique claro, em nenhuma das fases você esqueceu. Eu, Hugo, abandonado e com o pedaço menor do coração partido nem sei dizer em que fase estou. Segundo meus amigos eu precisava começar a demonstração naquela sexta a noite de qualquer forma. Eles já não aguentavam mais sair e me ver ficando em casa vendo filmes e jogando video game. Eu não estava nem um pouco afim de ir pra um bar. Primeiro porque eu não estava interessado em nenhuma mulher. Segundo porque provavelmente eu ficaria bêbado, e se eu ficasse bêbado, iria falar sobre meu problema de amor pra qualquer coisa. Quando eu digo qualquer coisa, é qualquer coisa mesmo - na última festa que eu fiquei assim contei pra uma garrafa de vodka todos os meus problemas - trágico. Como eu ia dizendo eu não estava nem um pouco afim de sair, mas, naquela sexta, meus amigos me arrastaram. Logo que cheguei me arrependi, todos eles estavam com alguma garota e é claro, tinha uma pra mim também. Eu automaticamente fiquei mal humorado e fui me sentar no balcão do bar "já que estamos aqui, traga minha amiga garrafa pra eu desabafar". Depois de algumas doses meu mau humor parecia aumentar e a dor no coração também. Parece que o álcool só me fazia sentir mais falta dela. Veja bem eu e a Laura, minha ex, tivemos uma crise no namoro pelo seguinte motivo: ela reclamava do meu desapego e das contradições nas minhas desculpas e eu reclamava da falta de confiança e compreensão dela. Era como se um tivesse preguiça do outro. Resultado: um término, amigável mas nem tanto. Ela saiu da minha casa dizendo "é bom pra pensarmos realmente no que queremos". Assim que ela bateu a porta eu me arrependi. E comecei as fases do término. Eu achei que ela ligaria, que voltaria na próxima semana com saudade. Eu ir atrás não era uma opção, o orgulho não deixava. E agora eu estava aqui, 1 mês depois, tentando superar. Olho em volta do bar na tentativa de encontrar meus amigos e os avisto saindo do bar com mais garotas, já estão mais altos que o empire state, certamente. Continuo minha observação pelo bar e ei, aquela não é a Laura sentada do outro lado do bar? Sim, a própria. E com outro cara, diga se de passagem. Qual será o assunto tosco que ele esta usando pra cantar ela ? Vou sugerir que pergunte sobre a cicatriz que ela tem no coração, pois ao meu ver naquele momento ela estava bem curada do nosso amor. Ao contrario de mim, que ando por ai com uma ferida aberta. Reparo tanto que ela me vê e eu aceno. Como eu queria uma daquelas garotas comigo agora. O cara levanta e sai sem nem se despedir. Será que ela o dispensou ? Me sinto um pouco mais feliz agora. Tomo mais uma dose de alguma coisa que o garçom me serve e com o resto de coragem que tenho decido ir até lá. Ela não se espanta quando eu chego e sento na sua frente na mesa pequena. 
- Oi Laura. 
- Não esperava te encontrar por aqui Hugo. 
- Quem era aquele cara ?
- Os bons modos não existem mais ? "Como vai Laura?" Acho que essa era a pergunta certa a se fazer.
- Eu sei como você está. Tentando esquecer, só isso. 
- Ah Hugo, você é sempre tão complicado.
- Acho que somos parecidos, então.
Aquela conversa não estava seguindo nada madura. Decido me levantar mas algo me prende ali. Acho que é o fato da minha namora... ex, estar incrivelmente gata naquele vestido preto decotado e com um olhar que me faz esquecer qualquer briga que a gente já teve. Eu chamo o garçom e peço duas doses de tequila.
- Já que estamos aqui, vamos dar um jeito de beber e desmoronar.
- Como nos velhos tempos.
- Como nos velhos tempos.
Ela olha em volta, como se estivesse segurando as palavras. Como eu.
- Eu fui promovida no trabalho, sou gerente do setor de criação agora.
- Ei, parabéns. É o que você sempre quis né ?
- Sim, agora eu posso dormir um pouco mais feliz.
- Bom, agora eu sei que eu não era tudo que você tinha. 
- Como se você fosse algum tipo de prêmio né.
- E eu não era ?! Olha só pra mim Laura.
Ela revira os olhos, certamente lembrando das outras milhares de vezes que eu já tinha falado isso. O garçom traz as bebidas e me da um sorriso malicioso, como se eu tivesse ganho na loteria por estar com uma garota como aquela. Retribuo o sorriso educadamente.
- Ei você está se gabando!
- Eu só fui educado, porque eu iria me gabar ?
- Entendo, olha só pra mim.
- Acho que não sou eu quem está se gabando agora.
Ela me da um soco de mentirinha, como nos velhos tempos e acho que meu mau humor foi embora. Ela coloca a mão por cima da minha e encara a mesa com o olhar perdido. Meu mau humor foi embora, definitivamente. Eu pergunto:
- O que foi ?
- Você sabe que eu estou tentando retirar o que eu disse né ? Sobre nós dois.
- Eu sei que eu não consigo mais ficar perto de você sem te beijar.
Eu me aproximo mais e ela sorri. Então entre bebidas e coisas sutis eu a beijo e é como se nunca tivessemos terminado. Não sei como fizemos as pazes tão rápido, nem sei se realmente fizemos mas as pazes. Mas aquilo foi uma trégua e eu aproveito o momento. A afasto por um instante pra dizer: 
- Eu sei que eu te decepcionei há meses, mas quando o bar fechar, eu vou te levar pra casa.
E voltamos de onde paramos. Pode ser que eu me arrependa amanhã, que ela se arrependa amanhã. Que isso seja só resultado das bebidas que tomamos essa noite. Mas de uma coisa eu sei, nós somos jovens, podemos colocar fogo no mundo, podemos brilhar mais que o sol, podemos e devemos aproveitar cada momento. E nós estávamos honrando isso agora.
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